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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

O poeta do amor é agora um proscrito



Como um lamento inesquecível, que se ouve a partir dos confins do Império, Ovídio cria Tristia, um dos textos mais poderosos da poesia latina, fundador da literatura de exílio. É esse livro que a Quetzal recupera numa edição bilingue – latim e português – traduzida por Carlos Ascenso André, com o título Cantos de Tristeza. Esta é também a primeira tradução integral para português.

Enviado para o exílio aos 51 anos pelo imperador, longe de Roma e da família, Ovídio vê-se obrigado a abandonar a vida de luxo e dos festins na grande cidade pelo frio e aridez de uma paisagem deserta e inóspita. Dessa radical mudança de vida nasceu um novo modelo de poesia, a «poética do exílio».

«Até então nunca poeta algum dera tanta atenção à temática do exílio e dela fizera não já só o núcleo, mas, mais do que isso, o conteúdo total de um livro ou, nesse caso, de dois», nota o tradutor no preâmbulo desta nova edição. «As delícias e os prazeres de Roma são trocados pela solidão e pela aridez penosa de um lugar remoto. O poeta do amor é agora um proscrito.»

Disponível nas livrarias a partir de 17 de setembro, Cantos de Tristeza conta com sessão de lançamento a partir da Festa do Livro de Belém logo no dia seguinte, 18, às 18h00, no Palco da Cascata, com apresentação de José Manuel Mendes e presença de Manuel Alegre, a quem Carlos Ascenso André dedica esta edição.

Sobre o Autor

Ovídio (Publius Ovidius Naso) nasceu em Sulmona, na região de italiana de Abruzzo, em 43 a.C., e morreu em 17 ou 18 d.C. em Tomos, atual Constança (Roménia), então colónia grega, um enclave entre o Danúbio e o Mar Negro. A sua obra é, ao lado da de Virgílio (70-19 a.C) e de Horácio (65-8 a.C.), de quem foi contemporâneo, um dos pilares fundadores da tradição poética ocidental.  De entre as suas obras distinguem-se Arte de Amar (Ars Amatoria), bem como Remédios Contra o Amor (Remedia Amoris), Cantos de Tristeza (Tristia) e Metamorfoses (Metamorphoses), ou o atualíssimo Heroides (Epistulæ Heroidum), uma série de cartas escritas por heroínas da tradição grega e romana aos seus amantes. O lirismo de Ovídio, ora confessional e melancólico, ora jocoso ou pleno de erotismo, ora marcado pela tristeza e pelo exílio, é uma das maiores influências no cânone posterior.  

Sobre o tradutor

Carlos Ascenso André (Monte Real, 1953) foi professor de línguas e literaturas clássicas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Nela se doutorou em 1990, antes de passar pela China e ainda por Macau, onde dirigiu o Centro Pedagógico e Científico da Língua Portuguesa do Instituto Politécnico de Macau. Tem uma longa carreira dedicada ao estudo e à tradução de literatura latina – seja a da época clássica (Cícero, Virgílio, Ovídio, Séneca), seja a do Renascimento – e aos estudos camonianos. Foi visiting professor em várias universidades estrangeiras, como a Universidade da Ásia Oriental (Macau), além das de Hamburgo, Gotinga, Xangai e Poitiers. A Quetzal publicou a sua versão bilingue da Eneida, de Virgílio, bem como Eneida de Virgílio Adaptada para Jovens ou Arte de Amar e Remédios contra o Amor, de Ovídio, ambos também em edição bilingue. A tradução de Arte de Amar recebeu o Prémio D. Diniz da Fundação Casa de Mateus em 2024.