A plataforma independente dedicada às artes performativas e à cultura assinala duas décadas de actividade a 16 de Novembro, com uma conversa entre Rui Horta, Inês Lampreia e Pedro Mendes, moderada pelo jornalista Ricardo Ramos Gonçalves.
Mário Laginha junta-se à celebração com um momento musical
Em 2006, quando as redes sociais ainda não ditavam as regras da visibilidade e a informação sobre oportunidades profissionais nas artes circulava de forma dispersa, nasceu um blogue com uma ideia simples: aproximar quem cria, quem programa e quem procura trabalho na cultura. Chamava-se Coffeepaste. Foi criado a 19 de Outubro por Rita Lucas Coelho, Carlos Custódio e Pedro Mendes, que continua hoje à frente do projecto.
Vinte anos depois, o projecto reúne um património documental singular sobre a história recente das artes performativas em Portugal. Desde 2015, realizou mais de 1.200 entrevistas em vídeo a artistas, criadores, programadores e outros profissionais da cultura, dando, muitas vezes, a primeira oportunidade de expressão pública a nomes e colectivos que viriam a afirmar-se no panorama artístico. Mais do que uma sucessão de testemunhos individuais, este arquivo constitui um retrato da criação contemporânea portuguesa, permitindo acompanhar a evolução dos discursos, das inquietações e das condições em que a cultura se pensa, se produz e se transforma.
A 16 de Novembro, o Coffeepaste celebra o seu 20.º aniversário na Sala Bernardo Sassetti do Teatro São Luiz, em Lisboa, com uma conversa que também faz um balanço de duas décadas de criação artística em Portugal. Rui Horta, Inês Lampreia e Pedro Mendes, com moderação do jornalista Ricardo Ramos Gonçalves, discutem as mudanças, as conquistas e as contradições de um sector onde a criatividade nem sempre encontra correspondência nas condições de trabalho. O pianista Mário Laginha junta-se à celebração com um momento musical.
Vinte anos de cultura, oportunidades e muita persistência
Os classificados estiveram na origem do Coffeepaste e continuam a ser uma das suas áreas mais procuradas. De castings e concursos a ofertas de emprego, convocatórias para projectos e propostas de colaboração, a plataforma tornou-se um ponto de encontro entre quem procura oportunidades e quem as cria, contribuindo para tornar mais acessível a informação num sector marcado pela dispersão, pela intermitência laboral e por redes de contacto nem sempre abertas a todos.
Num inquérito realizado pelo Coffeepaste, há cerca de dois ou três anos, 51% dos participantes que visitavam o site afirmaram ter conseguido trabalho através da plataforma. Um resultado que ajuda a perceber a importância de um projecto cuja utilidade se mede também pelo que acontece fora do ecrã.
Em 2013, o blogue transformou-se num portal. Em 2022, ganhou uma nova identidade gráfica e funcional, à qual se juntaram uma agenda cultural, em 2023, e uma área de notícias, em 2024. Hoje, o Coffeepaste reúne informação, crítica, entrevistas, podcasts, classificados, agenda e formação, através do COFFEELABS, registando cerca de 100 mil visualizações de página mensais.
Mas a sua relevância não se esgota na circulação de informação. Num panorama mediático em que o espaço dedicado à cultura, à crítica e à criação emergente é frequentemente limitado, o Coffeepaste tem procurado acompanhar artistas e estruturas que nem sempre encontram lugar nos meios generalistas.
«Nós fazemos, muitas vezes, a primeira entrevista a artistas e coletivos, que depois se verifica virem a tornar-se mais conhecidos, com trabalho mais estabelecido», explica Pedro Mendes, fundador e director do Coffeepaste.
Esta atenção continuada à criação menos visível transformou a plataforma num lugar de documentação e memória, mas também de descoberta. Não se trata apenas de registar o que já conquistou reconhecimento, mas de acompanhar o que está a acontecer, muitas vezes longe dos grandes palcos e das agendas mais mediáticas.
O projecto mantém-se com uma equipa de quatro pessoas, a que se juntam outros profissionais consoante as necessidades, e um modelo de financiamento assente sobretudo em receitas próprias.
Em Outubro de 2026, lançou um sistema de subscrições através do Patreon, procurando reforçar a sustentabilidade financeira e envolver a comunidade na continuidade de um meio de comunicação independente.
O que mudou em vinte anos e o que continua por resolver?
Celebrar duas décadas de Coffeepaste é também olhar para vinte anos de cultura em Portugal. Um período em que se multiplicaram estruturas e projectos, se transformaram as políticas públicas de apoio às artes e mudaram profundamente as formas de produzir, comunicar e consumir cultura. Nem todas essas mudanças, porém, se traduziram em melhores condições para quem trabalha no sector.
É a partir desta tensão entre conquistas e problemas persistentes que se organiza a conversa “20 anos de cultura, artes e Coffeepaste”, marcada para as 16h15 de 16 de Novembro, na Sala Bernardo Sassetti do Teatro São Luiz.
O painel reúne Rui Horta, coreógrafo de percurso internacional e fundador d'O Espaço do Tempo, em Montemor-o-Novo, uma das estruturas de referência no desenvolvimento das residências artísticas em Portugal; Inês Lampreia, escritora, professora e comunicadora cultural, com um percurso ligado a projectos como Teatro Praga, Alkantara e Culturgest; e Pedro Mendes, fundador e director do Coffeepaste, cuja actividade cruza comunicação, programação, formação e acompanhamento de projectos artísticos. A moderação estará a cargo de Ricardo Ramos Gonçalves, jornalista, crítico e editor cultural.
Entre a experiência da criação, a comunicação e a observação continuada do sector, a conversa propõe discutir as condições de trabalho artístico, a relação entre instituições e criadores, o papel dos media e a própria ideia de participação cultural. E, sobretudo, perceber que questões continuam a exigir respostas vinte anos depois.
Às 17h45, Mário Laginha junta-se à celebração para um momento musical, a que se segue um convívio e brinde de aniversário.
Num sector habituado à duração limitada dos projectos, à instabilidade dos financiamentos e à constante necessidade de recomeçar, manter uma plataforma independente durante vinte anos é, por si só, significativo. Pedro Mendes resume esse percurso numa palavra: «persistência». Uma persistência que não se traduz apenas na continuidade do Coffeepaste, mas na atenção dedicada a sucessivas gerações de artistas, às suas condições de trabalho e às histórias que, de outra forma, poderiam ficar por contar.
Em 2026, o Coffeepaste continua a fazer aquilo a que se propôs desde o início: criar ligações, fazer circular oportunidades e dar espaço a quem faz cultura, muito antes de chegar o reconhecimento.