Quase 90 anos depois, uma composição de Fernando Lopes-Graça volta a ganhar vida. Escrita durante o exílio em Paris para um bailado apresentado uma única vez, em 1938, a obra é recuperada em A Febre dos Tempos, a nova criação de João dos Santos Martins, produzida pela Culturgest e pela Associação Parasita. Partindo deste episódio pouco conhecido da história da música e da dança europeias, o espetáculo estabelece uma ligação entre o passado e o presente para questionar as inquietações da Europa contemporânea. Apresenta-se de 16 a 19 de junho de 2027, na Culturgest.
Em maio de 1938, a Compagnie des Ballets Internationaux apresentou no Teatro Pigalle, em Paris, La Fièvre du Temps, uma revista-coreográfica com música de Fernando Lopes-Graça. Foi a única apresentação conhecida da obra, num ensaio geral aberto ao público e à crítica. Quase 90 anos depois, a composição escrita durante o exílio do músico português é o ponto de partida de A Febre dos Tempos, uma produção da Culturgest e da Associação Parasita, em coprodução com a OPART/TNSC, com criação de João dos Santos Martins.
Em 1937, Fernando Lopes-Graça instalou-se em Paris, fugindo à repressão do Estado Novo. Na capital francesa juntou-se à Compagnie des Ballets Internationaux, uma companhia formada por artistas de diferentes nacionalidades, muitos deles exilados e perseguidos pelos regimes fascistas. Entre os impulsionadores da companhia estavam Jean Weinfeld, ligado ao teatro político francês, e a bailarina alemã Julia Marcus, afastada do Ballet do Teatro Municipal de Berlim, em 1933, por ser judia e militante comunista. Foi neste ambiente de exílio e resistência política, nas vésperas da Segunda Guerra Mundial, que nasceu La Fièvre du Temps, uma criação que levava a palco as grandes inquietações da época: a corrida ao armamento, a industrialização, a crise financeira e a aceleração dos ritmos da vida moderna. A música de Lopes-Graça acompanhava esta turbulência política e social. A obra teve uma única apresentação, num ensaio geral aberto ao público, mas, por razões desconhecidas, nunca chegou a estrear oficialmente.
A partitura, escrita para dois pianos, permaneceu conservada no espólio de Lopes-Graça, depositado no Museu da Música Portuguesa – Casa Verdades de Faria. A investigação de Manuel Deniz Silva, do INET-md/NOVA FCSH, tem permitido recuperar este capítulo pouco conhecido da história da música e da dança europeias.
Em A Febre dos Tempos, João dos Santos Martins parte da música de Lopes-Graça e da história de La Fièvre du Temps para criar um espetáculo que estabelece um diálogo entre o passado e o presente, revisitando as inquietações políticas e sociais da Europa dos anos 1930 à luz do mundo contemporâneo.
"Tudo começou na partitura de Fernando Lopes-Graça com o intuito arqueológico e de invenção que procura cruzar a urgência dessa história com o nosso presente e com isso pensar como o corpo atravessa uma temporalidade turbulenta e febril que está entre conflito e resistência, entre memória e devir." explica João dos Santos Martins.
Quase um século depois, a Europa volta a confrontar-se com a ascensão de movimentos de inspiração fascista, políticas discriminatórias, o endurecimento das fronteiras e a disseminação de discursos de ódio contra quem é visto como estrangeiro. Enquanto alguns países procuram proteger-se da ameaça da guerra, outros vivem-na diariamente. É neste cenário que A Febre dos Tempos reencontra a urgência da obra de Lopes-Graça.
A nova produção reúne ainda artistas de diferentes áreas: Ana Jotta, referência da arte contemporânea portuguesa, assina a cenografia e os figurinos, e o maestro e pianista João Paulo Santos, um dos mais reconhecidos intérpretes da obra de Lopes-Graça, será um dos pianistas do espetáculo, a par de Nuno Margarido Lopes.
Produzido pela Culturgest e Associação Parasita, A Febre dos Tempos mobiliza uma rede de parcerias que inclui OPART/Teatro Nacional de São Carlos, Museu Nacional do Teatro e da Dança, Museu da Música Portuguesa – Casa Verdades de Faria (Cascais) e INET-md/NOVA FCSH. Esta colaboração reúne diferentes áreas de conhecimento e prática artística, da investigação histórica à interpretação musical, em torno de uma produção que cruza criação contemporânea e recuperação do património cultural.
O projeto inclui também a publicação de um livro e a realização de uma exposição - no Museu Nacional do Teatro e da Dança - que irão aprofundar a história de La Fièvre du Temps e o contexto artístico e político em que nasceu. Estas iniciativas permitirão conhecer melhor este episódio singular do percurso de Lopes-Graça e a comunidade internacional de artistas exilados que lhe deu origem, prolongando para além do palco a investigação e a reflexão sobre a obra.
Dia 19 de junho, a sessão terá interpretação em Língua Gestual Portuguesa e Audiodescrição com reconhecimento de palco uma hora antes do início do espetáculo.
Os bilhetes para custam entre 5€ e 18€ e estão à venda na Culturgest e na rede Ticketline.


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