quinta-feira, 26 de março de 2026

Golias e o risco existencial da nossa sociedade



Durante os primeiros trezentos mil anos da humanidade, vivemos em sociedades tendencialmente igualitárias que impediam qualquer indivíduo ou grupo de governar permanentemente. Contudo, há cerca de doze mil anos, o crescimento dessas sociedades e a dependência de recursos saqueáveis, nomeadamente para a alimentação, levou ao desenvolvimento de grandes estados e impérios, com vastas burocracias e poderosos meios militares que procuraram dominar enormes extensões de território. Tornaram-se aquilo a que o investigador da Universidade de Cambridge, Luke Kemp, chama «Golias». 

Em A Maldição de Golias, explica que, tal como o gigante da Bíblia derrubado por David, também estes impérios foram derrubados. Como? Seja nas primeiras cidades de Cahokia ou Tiwanaku, na América do Norte ou nos amplos impérios do Egito, Roma e China, foi o aumento da desigualdade e das concentrações de poder que esvaziaram esses Golias.

Kemp explica que, à época, esses colapsos foram descritos como apocalípticos, mas, na verdade, terão sido, na maioria dos casos, uma bênção para as suas populações. Situação que, no nosso século, poderá repetir-se, mas não da mesma forma.

O que mudou? Agora vivemos num único Golias global, onde a indústria dos combustíveis fósseis, as big techs e os complexos militares-industriais dominam, com a conivência das grandes potências mundiais, o nosso mundo obcecado por crescimento e pela corrida nuclear. Os nossos sistemas são agora tão rápidos, complexos e interligados que um futuro colapso será provavelmente global, rápido e irreversível.

Não é pessimismo, é a análise de um especialista do Centro para o Estudo do Risco Existencial que nos diz que ainda há tempo, mas que temos apenas duas hipóteses: ou aprendemos a controlar democraticamente este Golias – a crise climática, a instabilidade geopolítica e as rápidas mudanças tecnológicas – ou o próximo colapso poderá ser o nosso último. Não é por acaso que The New York Times diz que este livro «é como ler Thomas Piketty filtrado por Mad Max.»

Uma releitura radical da história humana através do colapso das sociedades, desde os primórdios da nossa espécie até às ameaças do presente e do futuro, A Maldição de Golias chega às livrarias a 2 de abril com a chancela da Bertrand Editora e tradução de Joaquim Gafeira.

Sobre o Autor

Luke Kemp é investigador associado do Centro para o Estudo do Risco Existencial da Universidade de Cambridge. Tem formação em geografia humana, relações internacionais e economia, tendo lecionado na Australian National University (ANU). A sua investigação tem sido divulgada nos meios de comunicação como o New York Times, a BBC e a New Yorker.