O prolífico e inclassificável cineasta francês – e também produtor musical – Quentin Dupieux apresenta a sua comédia negra mais realista até à data. O Acidente do Piano revela um Dupieux em modo observador crítico do “novo normal”: um mundo moldado pelas redes sociais, onde a exposição e a performance definem a experiência contemporânea.
Magalie (Adèle Exarchopoulos), uma influencer de sucesso especializada em conteúdos sensacionalistas, sofre um violento acidente enquanto grava mais um dos seus vídeos virais. Durante a recuperação, isolada nas montanhas com o seu assistente pessoal (Jérôme Commandeur) e sob o olhar atento de Roméo – um stalker interpretado por Karim Leklou (protagonista de "Vincent Tem de Morrer") –, a situação agrava-se quando uma jornalista a começa a chantagear, ameaçando revelar segredos capazes de destruir a sua carreira.
Adèle Exarchopoulos surpreende num papel que rompe com a sua imagem habitual no ecrã (marcada por títulos como "A Vida de Adèle", "Passagens" ou "Reino Animal"), confirmando a sua versatilidade, o apurado instinto para a comédia absurda e a capacidade de desconstruir a própria persona, nesta que é a sua nova colaboração com Dupieux, depois do sucesso de "Mandíbulas" (2020).
Quentin Dupieux assina aqui a sua sátira mais negra (e atual) sobre o mundo digital
Sátira incisiva ao ecossistema mediático contemporâneo, "O Acidente com o Piano" constrói-se a partir de uma protagonista tão fascinante quanto perturbadora: Magalie, uma mulher introvertida e socialmente desajustada que alcança fama através de vídeos ultracurtos onde se expõe aos riscos mais absurdos.
Neste novo filme, Dupieux contém o seu habitual absurdismo e acentua uma tonalidade mais sombria, naquele que poderá ser o seu trabalho mais negro – também o mais próximo da realidade. Tudo começa com um pássaro a embater contra um para-brisas numa paisagem nevada, dando o mote para um olhar mordaz sobre os fenómenos que definem a era digital: o sensacionalismo vazio dos influencers, a fama levada ao limite, a supremacia tóxica do lucro, a erosão da empatia e a amoralidade do jornalismo.
Através de uma câmara que nunca desvia o olhar, Dupieux aponta a uma multiplicidade de alvos e aprofunda uma visão simultaneamente cruel e lúcida do presente. Em entrevista, o realizador sublinha aquilo que distingue este filme dos seus trabalhos anteriores, desde "Rubber" (2010):
"A palavra “absurdo” tem sido muito usada em relação aos meus filmes, mas acredito que “O Acidente com o Piano” não é mais absurdo do que a vida real, embora eu não tenha mudado a forma como escrevo. Tudo está a acontecer tão depressa que sinto que é a primeira vez que o absurdo de um dos meus filmes corresponde perfeitamente ao absurdo da vida real." refere Quentin Dupieux.
