terça-feira, 14 de abril de 2026

"CARTA: 65 anos depois da Carta a Uma Jovem Portuguesa" em Coimbra: teatro revisita 65 anos da condição feminina



“Vou escrever para ti jovem portuguesa

A minha realidade é igual à tua. A minha liberdade não é igual à tua. Separa-nos um muro alto e espesso, que nem tu nem eu construímos.
Só nos é permitido atravessar o muro para escolhermos. E eu escolho-te a ti jovem portuguesa. Tu que estás submissa e passiva no canto onde te procuro. Tu que vens abúlica e absorvente para eu moldar. Tu para quem o amor é passividade, dever e obrigação. Tu vítima de todos nós e de ti mesma (…)

Hoje temos mais do que nunca necessidade de ti. Jovem portuguesa! (...) queria escrever-te directamente porque não te conheço e tu não me conheces. Tu és a imanência carnal que os jovens insultam e desejam. Mas tens de ser no futuro a jovem ao lado do jovem. A rapariga ao lado do rapaz. Tens de derrubar connosco o muro que nos separa. Tens de entrar no nosso mundo errado, mas errado por tu não estares lá.

Só assim verdadeiramente te conhecerei. Saberei o sabor do teu corpo, a cor dos teus cabelos e dos teus olhos (...)”

Excerto da “Carta a uma jovem Portuguesa”, 1961


Sessenta e cinco anos após a publicação de Carta a uma Jovem Portuguesa, de Artur Marinha de Campos, a criadora e atriz Graça Ochoa apresenta CARTA, um espetáculo que revisita e confronta o passado e o presente da condição feminina. A estreia acontece a 26 de abril, no Convento São Francisco, em Coimbra, numa criação da Monstro Colectivo que propõe uma reflexão urgente dirigida a jovens e ao público em geral.

Partindo da icónica Carta a uma Jovem Portuguesa, publicada em 1961 no jornal Via Latina, CARTA: 65 anos depois da Carta a Uma Jovem Portuguesa emerge como um gesto artístico de questionamento e atualização. O espetáculo convoca temas como o namoro, a violência nas relações, o prazer, a sexualidade e a relação com o corpo, explorando-os a partir de uma perspetiva feminina profundamente enraizada na experiência da sua criadora.

Num cruzamento entre passado e presente, Graça Ochoa constrói uma dramaturgia que evidencia continuidades, rupturas e transformações na vivência da feminilidade ao longo das últimas décadas. O que mudou — e o que permanece — nas dinâmicas afetivas? Que heranças persistem, mesmo após conquistas sociais significativas? E que novas cartas precisam ainda de ser escritas?

Mais do que revisitar um documento histórico, CARTA propõe-se como um rascunho contemporâneo: uma carta dirigida a todos, que ecoa questões ainda por resolver. O espetáculo nasce da experiência anterior da criadora numa visita encenada à exposição Primaveras Estudantis – da crise de 1962 ao 25 de Abril, apresentada em Coimbra em 2023, onde o contacto com a carta original e com testemunhos sobre a condição feminina despertou a necessidade de aprofundar estas reflexões em palco. O espetáculo é acompanhado por uma seleção musical eclética e surpreendente que atravessa décadas de desejo, rebeldia e intimidade, revelando como as diferentes manifestações do amor se reinventam entre o silêncio, a vulnerabilidade e a libertação. 

Reconhecendo que, apesar das transformações sociais, a violência contra as mulheres continua a ser uma realidade, esta criação assume-se como um espaço de pensamento crítico e diálogo intergeracional, convidando o público a refletir sobre o presente e a imaginar o futuro.

No dia 27 de abril, em sessão dupla (10h00 e 14h30), o projecto será apresentado a escolas.