A segunda longa-metragem Asas, de Ana Rocha de Sousa, terá a sua estreia mundial no dia 1 de setembro, no âmbito da 17.ª edição do Odesa International Film Festival, que decorre de 27 de agosto a 4 de setembro de 2026.
A realizadora Ana Rocha de Sousa estará presente em Odessa no dia 1 de setembro para acompanhar a estreia mundial do filme e apresentar a obra ao público ucraniano, num momento de particular significado, tendo em conta que Asas é uma coprodução entre Portugal e Ucrânia e que a sua estreia acontece em pleno contexto de guerra.
Esta edição do festival realiza-se num contexto particularmente difícil para a Ucrânia, com a cultura e o cinema a continuarem a afirmar-se como espaços de resistência, memória e diálogo. A presença de Asas no festival assume, por isso, uma dimensão que ultrapassa o seu percurso cinematográfico: um filme construído entre Portugal e Ucrânia regressa ao país que está no centro da sua história, para ser apresentado ao público durante o conflito.
Asas é uma coprodução entre Portugal e Ucrânia e Chipre, produzida pela Maria & Mayer, de Maria João Mayer, em coprodução com a ucraniana Onde Film, de Igor Savychenko. O filme contou com o apoio do ICA – Instituto do Cinema e do Audiovisual, da Ukrainian State Film Agency e da RTP e é distribuído internacionalmente pela Portugal Film – Agência Internacional de Cinema Português.
O reconhecimento de Listen, a primeira longa metragem de Ana Rocha de Sousa marcou a sua entrada no panorama internacional e estabeleceu a realizadora como uma das vozes portuguesas a acompanhar no cinema contemporâneo. Asas, a sua segunda longa-metragem, dá agora continuidade a esse percurso através de uma história profundamente ligada à Ucrânia e de uma colaboração cinematográfica entre os dois países.
Inspirado na história verdadeira de uma família ucraniana, Asas acompanha mulheres obrigadas a abandonar o seu país e a procurar refúgio em Portugal. O contexto da guerra é, contudo, apenas uma das dimensões do filme. A realizadora procura também explorar as guerras interiores de cada uma das mulheres — a perda, o medo, a culpa, a separação e a tentativa de reconstruir uma vida depois da violência.
Para Ana Rocha de Sousa, o ponto de partida do filme foi a ação de uma ativista que, em 2022, surgiu num importante festival de cinema com uma exigência simples pintada no corpo nu: “Stop Raping Us” (“Parem de nos violar”). A intervenção confrontou o mundo com os relatos de violência sexual que chegavam da Ucrânia e levou a realizadora a questionar a forma como a guerra é representada pelo cinema e, sobretudo, a ausência tantas vezes sentida do ponto de vista das mulheres.
Os inúmeros relatos de violência e o risco de um silêncio que se transforma em cumplicidade tornaram-se fundamentais para a construção do filme.
“O contexto destas mulheres e desta família é a guerra, mas o filme fala também das guerras internas de cada uma delas.”
Em Asas, a ficção mantém-se deliberadamente próxima da realidade. O filme inspira-se numa família verdadeira e, em determinados momentos, recorre a imagens reais, recusando reconstruir a devastação através de um olhar meramente estético. A intenção é encontrar uma linguagem capaz de conter a brutalidade sem a reproduzir ou transformar em espetáculo, abrindo simultaneamente espaço para pequenas formas de esperança.
“Se a arte não o fizer, o que fará?”, questiona Ana Rocha de Sousa.
A estreia mundial em Odessa, com a presença da realizadora, representa assim um momento particularmente simbólico: uma obra nascida de uma colaboração cinematográfica entre Portugal e Ucrânia é apresentada no próprio país cuja realidade inspirou a sua história, enquanto o conflito continua.
Mais do que uma estreia, Asas pretende ser um encontro entre cinema e realidade, entre dois países e entre as mulheres que vivem a guerra e aquelas que, através do cinema, procuram dar-lhes voz.

