A Ra-Ro lança a ra-ro.eu, uma nova plataforma online de artesanato português que já reúne 40 artesãos de todo o país, muitos deles em aldeias do interior onde são os últimos a dominar o seu ofício. A plataforma vende peças feitas à mão, uma a uma, algumas das quais levam semanas a ficar prontas. A diferença está no modelo: a Ra-Ro acompanha cada artesão em tudo o que envolve tecnologia, para que ele possa se dedicar apenas ao ofício.
"Num país em que o interior perde gente todos os anos, há saberes inteiros que dependem de uma única família", diz Luís Serra, cofundador da Ra-Ro. "Se não houver quem compre, não há razão para ensinar quem vem a seguir. A ra-ro.eu existe para criar esse mercado."
Entre os artesãos da plataforma está César Teixeira, de Gondar (Amarante). Ele e o filho, João, são os últimos a cozer o barro negro em soenga, uma técnica com mais de 400 anos. Se pararem, a técnica desaparece.
O problema é nacional. Nos Censos 2021, 257 dos 308 municípios perderam população. Em Bisalhães (Vila Real), cuja olaria negra foi classificada pela UNESCO como património em risco, restam seis oleiros, a maioria idosos.
César Teixeira não é caso isolado. Nuno Pereira é hoje o único produtor do Vinho dos Mortos, em Boticas, um vinho que se enterra para envelhecer desde as invasões francesas. Só oito artesãos estão certificados para fazer o Bordado de Guimarães, e duas delas trabalham n’A Oficina, que vende na Ra-Ro. Helena Novelletto é uma das últimas tecedeiras de bunho do país, e Isidoro Ramos um dos poucos que ainda colhe esparto nas serras do interior algarvio.
A Ra-Ro foi criada por três amigos, que passaram um ano a testar produtos com o público e a ganhar a confiança dos artesãos antes do lançamento. Os 40 artesãos da plataforma, reunidos em 29 oficinas e produtores, vêm de mais de 20 concelhos, do Minho aos Açores, e trabalham cestaria, cerâmica, têxteis, madeira, cortiça, lã, vidro, cobre, sal e instrumentos musicais. Uma viola braguesa construída à mão por Diogo Valente demora cerca de oito semanas a ficar pronta. Um Cobertor de Papa, tecido por Céu Reis em Maçainhas (Guarda) num tear com mais de 300 anos, leva cerca de quatro.
É aqui que a Ra-Ro muda as regras. A maioria destes artesãos nunca teve uma loja online e muitos vendem apenas em feiras ou à porta de casa. Em vez de lhes pedir que aprendam a gerir uma plataforma, a Ra-Ro acompanha todos os artesãos em cada passo: fotografa as peças, conta a sua história, trata das encomendas, da embalagem e do envio para Portugal e para o estrangeiro. O artesão não precisa de dominar a tecnologia; continua concentrado no que sabe fazer.
"O foco destes artesãos é o ofício, e deve continuar a ser. A tecnologia fica do nosso lado", diz Luís Serra. "A nossa missão é perpetuar a portugalidade: garantir que aquilo que nos distingue como país continua a ser feito, e por quem sabe fazê-lo."
A plataforma introduz também o Índice Ra-Ro, uma classificação que mede quão difícil é encontrar cada peça e quantas mãos ainda a sabem fazer. Tem cinco níveis: Invulgar, Escasso, Raro, Raríssimo e Único. Das 141 peças disponíveis no lançamento, 60 são classificadas como Raríssimas, por serem feitas por poucos artesãos com técnicas em risco, e cinco são peças únicas, que não se repetem.
Feitas as contas, quase três em cada quatro peças (103 de 141) estão nos três níveis mais altos do índice: Raro, Raríssimo ou Único. Duas em cada três são feitas por encomenda, só depois de o cliente comprar, e 31 existem num único exemplar. Entre as cinco peças Únicas estão o Cobertor de Papa, que a oficina de Céu Reis mantém vivo em Maçainhas, e o Vinho dos Mortos, de Boticas.
"O Índice Ra-Ro dá a quem compra uma informação que nunca teve: quão perto está aquele ofício de desaparecer", diz Luís Serra. "Quem leva uma peça Raríssima sabe que está a apoiar uma técnica que pode não chegar à próxima geração."
"Com a inteligência artificial, tudo o que pode ser automatizado vai tornar-se igual e abundante", acrescenta Luís Serra. "O que é feito à mão, com tempo e com um saber passado de geração em geração, vai valer cada vez mais."
O artesanato português também está a sair do país. Nos meses de testes, as encomendas chegaram da Alemanha, do Reino Unido, da Irlanda, de França e da República Checa. A Ra-Ro conta também a história dos artesãos em vídeo: a curta-metragem “Made of Time”, sobre o barro negro de Gondar, recebeu quatro prémios, e há 19 curtas sobre quem faz cada peça.
É por aqui que a Ra-Ro quer crescer. Até ao final do ano, a plataforma pretende duplicar o número de artesãos e levar o trabalho de todos aos mercados internacionais, com a loja já disponível em sete línguas. O objetivo é que cada artesão venda mais, e venda para mais longe, sem ter de sair da sua oficina.
"A nossa paixão é esta: que um oleiro de Gondar ou uma tecedeira de Maçainhas vendam para Londres ou Berlim sem deixar a aldeia. Cada peça que sai de Portugal é mais uma razão para o ofício continuar.", sublinha Luís Serra.
A Ra-Ro em números
• 40 artesãos em 29 oficinas e produtores, de mais de 20 concelhos e 8 regiões, do Minho aos Açores
• 141 peças à venda, feitas à mão, uma a uma
• Índice Ra-Ro: 5 Únicas, 60 Raríssimas, 38 Raras, 22 Escassas e 16 Invulgares
• 3 em cada 4 peças nos três níveis mais altos do índice
• 2 em cada 3 peças feitas por encomenda; 31 com um único exemplar
• De 48 horas a 8 semanas de espera, conforme a peça
• Mais de 10 ofícios: cestaria, cerâmica, têxteis, madeira, cortiça, lã, vidro, cobre, sal e instrumentos musicais
• Clientes em 6 países: Portugal, Alemanha, Reino Unido, Irlanda, França e República Checa
• 4 prémios para a curta “Made of Time” e 19 curtas sobre os artesãos
• 1 ano de preparação antes do lançamento
• Objetivo até ao final de 2026: duplicar o número de artesãos e levá-los a mercados internacionais
